Redação - Lugar Certo
Vidros especiais reduzem e até eliminam o barulho, mas o projeto acústico merece atenção
| Fotos: Alessandra Amaral/Inverso |
Quem mora em apartamento sabe o incômodo que é conviver com os ruídos que costumam vir de todos os lados. Objetos caindo no andar de cima, passos, vozes, descargas, gritos na área de lazer, som alto no salão de festas, agitação e trânsito pesado da rua e um irritante “zum-zum-zum” que vem da própria tubulação do condomínio. Fantasmas como esses fazem parte da rotina de muita gente, mas pelo menos parte desta barulheira pode estar com os dias contados: embora o ideal seja fazer um bom projeto acústico ainda na planta, já existem soluções eficientes, mesmo depois de o imóvel construído, para reduzir ou até mesmo dar um basta no barulho. Uma delas – e talvez a mais requintada – é o vidro. Além de permitir a entrada de luz, o material equilibra as formas, integra os espaços, cria ambiência, amplitude, leveza, sensações e ainda reduz o barulho. Já faz algum tempo que o vidro caiu no gosto do consumidor. E, se depender dos avanços da tecnologia, o reinado promete ser duradouro. Para a arquiteta Marina Maciel, são muitas e utilitárias as possibilidades de uso do vidro. “Não existe mais aquele frágil e velho conceito de que o que era vidro se quebrou. O que existem são normas de aplicação criadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) regulando condições para que os cálculos e escolhas sejam feitos corretamente”, afirma. A boa notícia é que já é possível encontrar vidros capazes de isolar completamente o barulho, como é o caso dos duplos ou insulados. No entanto, não basta apenas escolher o material adequado. É preciso considerar as especificidades de cada projeto, ou seja, o que se pretende em termos de conforto térmico, acústico e visual para a casa. O ideal é analisar as melhores condições para a instalação da estrutura e caixilharia que vai receber o vidro, além da iluminação que se deseja ter no ambiente. Um exemplo: se a intenção é impedir completamente o barulho, o vidro terá que ser mais espesso, reduzindo a claridade.
Especificação
Para o engenheiro eletricista da Métron Acústica Engenharia e Arquitetura Krisdany Vinicius Cavalcante, a especificação correta do vidro, dos materiais e da técnica de instalação é fundamental para o bom desempenho do isolamento acústico. “Trata-se de um sistema integrado em que o vidro é apenas um dos componentes”, explica. Sua espessura deve variar com a freqüência e a intensidade do som que se quer barrar. “Quanto mais densa a folha de vidro e mais camadas tiver, melhor o solamento”, afirma o consultor. Os insulados funcionam também como barreira térmica. Isso porque a câmara, na realidade, é uma camada de ar confinado. Como o ar, por si só, já é um bom isolante térmico, haverá menos perda de energia, o que diminui custos na instalação de sistemas de ar-condicionado. Ainda segundo o engenheiro, a câmara dos vidros duplos deve ser montada industrialmente, e não no local da instalação, como fazem algumas empresas. “É comum ver profissionais usando duas folhas de vidro espaçadas por materiais como madeira, metal ou borracha. O problema dessa instalação é que ela não tem o mesmo desempenho do vidro duplo industrial e sempre há o risco de o material embaçar internamente”, adverte.
Laudo técnico define modelo
Os vidros duplos podem até ser os mais usados, mas não são os únicos acústicos e, nem sempre, os mais indicados. Os laminados surgem como uma boa opção quando o problema é mais simples. Esses são compostos por duas ou mais chapas, intercaladas por películas plásticas que, quando prensadas, aderem uma chapa à outra. O resultado é um “sanduíche de vidro”, com propriedades que envolvem desde tratamento acústico até segurança reforçada. A função deles, enquanto isolante de ruído, é determinada pela espessura do vidro e da película: quanto maior elas forem, menor é a transmissão de som entre os ambientes. Segundo o gerente da Bend Glass, Luiz Hamilton, o que determina o uso de um ou outro modelo é a existência de um laudo técnico que defina o tipo ideal a ser aplicado. Para o isolamento acústico ser considerado satisfatório, o nível de barulho medido no interior do quarto de uma residência não pode ultrapassar 45 decibéis, que é o limite recomendado pela ABNT e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para uma boa noite de sono. De todo modo, qualquer que seja a escolha, a fabricação do material e a execução do projeto sempre demandam mão-de-obra especializada. O conforto térmico é outra função importante a ser observada nos vidros. “Quem busca essa propriedade deve escolher os tipos refletivos, que reduzem a incidência de raios solares e, se associados aos laminados, filtram até 99% dos raios ultravioleta,” recomenda Luiz. Os raios ultravioleta são os principais responsáveis pelo descoloramento de móveis, tecidos, pinturas, carpetes e objetos. Também vale dizer que há inúmeras possibilidades para a instalação dos vidros especiais, como colas, fitas adesivas, ferragens específicas, pivôs, corrediças e dobradiças, bem como esquadrias específicas fabricadas em aço, alumínio, PVC ou madeira. O uso de um ou outro desses itens influi no nível de isolamento que se pretende ter. Vale ressaltar ainda que de nada adianta gastar com a execução de um ótimo projeto de vedação se não se cuidar de outras fontes de barulho. É o caso de sistemas de ventilação e ar-condicionado, que geram ruídos e funcionam como pontes acústicas de contaminação entre os ambientes. Mas mesmo problemas como esses podem ser facilmente solucionados. Nada que um projeto bem elaborado não possa dar jeito.
SAIBA MAIS
EM CONSTRUÇÕES JÁ CONCLUÍDAS, AS SOLUÇÕES SÃO MAIS CARAS E TRABALHOSAS DO QUE QUANDO ESTÃO PREVISTAS NA PLANTA. CONHEÇA ALGUMAS MEDIDAS QUE AJUDAM A DIMINUIR O BARULHO
* Forros e paredes feitas sob medida em madeira, gesso ou aço carbono criam conjuntos herméticos igualmente eficientes. Para isolar bem, recomenda-se o uso de materiais como mantas de lã de rocha ou vidro em todos os vãos existentes
* Portas e janelas confeccionadas como aquários de vidro permitem maior conforto térmico e acústico. Mas o isolamento só funciona quando estiverem fechadas e se possuírem vedação adequada. Já a intensidade do som que elas barram varia de acordo
com o tipo e espessura do vidro aplicado
* O tratamento adequado das chapas de vidro duplo, com películas metálicas nas faces interiores, também impede a entrada de calor no verão. Já o uso de chapas de espessuras diferentes garante um isolamento mais eficiente
* O barulho do salão de festas pode ser reduzido se instaladas esquadrias, portas e janelas acústicas. Contudo, o ideal é fazer um projeto que inclua também a vedação de paredes
* Os sistemas de ar-condicionado devem ser isolados com mangueiras flexíveis e elastômero, um tipo de borracha especial aplicada para absorver os impactos
* Prédios e casas que tenham as chamadas peles de vidro com estruturas não-aparentes devem ter junto da fachada um sistema de vedação contra ruído e fogo
* Para determinar o tipo ideal de vidro acústico, consideram-se os seguintes fatores: nível de ruído emitido pela fonte
poluidora, padrões estabelecidos de conforto acústico no ambiente onde se deseja adequar ou eliminar o barulho, tamanho da peça, dimensão do vão e espessura máxima disponível para a instalação do vidro.